26 de fev. de 2012
19 de fev. de 2012
Sensações
Sensações
A boca que, no desespero da noite grita sua angústia, cala ao toque de um olhar. Os ouvidos que desnudam melodias, são os mesmos que abafam o som do ensurdecedor silêncio de simplesmente escutar. Os olhos que se encantam com a beleza de poder deslindar um céu que está sempre mudando, uma vida que desperta no pântano e uma flor que desabrocha no alvorecer, são os mesmos que cegam a ameaça da escuridão.
A pele que mantém dentro de mim um eu que quero esconder, é a mesma que permite a entrada de dores que se confundem com as minhas próprias. As mãos que apalpam os segredos de infinitas notas musicais, são as mesmas que ficam dormentes ao toque de uma impossível perfeição. A mente que esgota palavras procurando na teia das sintaxes as metáforas mais sutis e esconde-as em meio a um emaranhado de anáforas, paradoxos, antíteses e elipses, é a mesma que fica vazia nos complexos diálogos da imaginação.
Os pés que deslizam nus nos frios pisos do quarto vazio, que percebem a leveza de andar sem rumo, são os mesmos que se perdem no caminho e de repente não sentem mais o chão. O nariz que inala o ar tão puro e permite o perfume de um dia de chuva inebriar o corpo, é o mesmo que percebe a podridão da sujeira que se espalha na atmosfera e invade a respiração.
E finalmente, o coração que se abre para novas paixões, que desperta a vida e procura a emoção da aventura de amar sem restrições, que não escolhe apenas acolhe sorrisos e se enche de amor ao observar que não precisa se fechar para se proteger, apenas deixar-se compreender na imensidão desta orquestra regida pelos sentimentos vastos de inúmeras gratidões. É o mesmo que permite o medo lhe emudecer os movimentos e esconde uma tristeza inominável, morrendo aos poucos com as mesmas lágrimas que sufocou.
20 de jan. de 2012
Isso passa...
É preciso enxergar todas as cores antes de escolher uma favorita. É preciso pensar todos os pensamentos malucos que ficam rondando a mente, antes de filtrar a pureza. É preciso cometer muitos erros antes de encontrar um caminho certo. É preciso experimentar cada sentimento antes de se entregar a apenas um. É preciso ouvir todas as notas de uma canção antes de desvendar a melodia. Nem tudo é perceptível se não estiver prestando atenção e quanto mais atenção for necessária, mais confuso e paradoxalmente claro vai se mostrar.
A angústia esconde a beleza daquilo que está na nossa frente. Sem aquele minuto de desespero, de submissão, não saberíamos o quanto podemos ser fortes. Sem o medo de perder o controle, não saberíamos que controlar ações é possível. Sem o passado não saberíamos quem somos no presente. Sem palavras os poetas seriam mudos e não saberíamos escutar um som tão suave quanto os versos das emoções.
Quando as lágrimas se esquecem de chorar, fica tudo mais apertado, sufocante, longe. Quando o medo de não suportar é viciante, todos os sentimentos se acumulam em algum lugar no coração e perdem-se na utopia de não existirem. Nunca foi tão importante dizer adeus e nunca foi tão assustador realmente querer dizer adeus. Partes de quem podemos ser gritam para não evanescer. Mas partes de quem realmente somos preferem se esconder ao olhar de quem nunca deixou de enxergar.
Eu só gostaria de ouvir uma voz dizer que eu escolhi a minha cor, que eu compreendi minha loucura e sei refletir os pensamentos sem descontrole. Que eu cometi mil erros, mas hoje um acerto vale muito mais. Que de todos os sentimentos que experimentei, eu me entreguei ao único verdadeiro. Que todas as notas que compuseram a minha melodia foram harmoniosamente escolhidas por mim. Que eu prestei atenção a tudo e hoje toda a confusão está mais clara, mesmo que ainda me confunda completamente e por vezes me joga para um abismo. Eu só gostaria de ouvir esta voz dentro de mim, que diz: “Isso passa”.
24 de dez. de 2011
O amor no ser humano
Como uma flor que desabrocha em pedras, o amor nasce das trevas. Sinto o toque, vejo a imagem, sinto o abraço, entendo linguagens. Interpretando poemas aprendi sobre o amor, mas apenas escrevendo, o revelei para mim. No fim, somos todos iguais, amamos mais ou menos, alguns amam intensamente, outros preferem a suavidade. Eu prefiro as cores no emaranhado da realidade. Uns aprendem com alegria, expressam a força que os guia para uma nova vida, outros aprendem forçados a compreender o incompreensível.
Mil poetas já cantaram o amor, uns o definindo ou tentando definir, outros exaltando a dor de amar sem ter fim. Mas se escrevem é por sentir, sentir que a vida vale a pena, que é pequena a dor de saber amar com paixão, com precisão no ser amado. Sem glorificar, apenas na ação de chorar, chorar em lágrimas, chorar em palavras, chorar em abraços, chorar aos pedaços, chorar tudo, ou chorar mudo.
Sinto que preciso imaginar um amor que me quer, algo maior, algo melhor, algo enaltecedor, algo no terror me faz perder tempo, perder música, perder medo, perder assistindo ao espetáculo de um ser conseguir em pouco tempo amar outro ser, com todas as virtudes e imperfeições, com todos os medos e idealizações. Com o poder de dizer que ama enquanto sorri e que ama ainda enquanto chora. Mora dentro de cada um de nós, um perdão e uma gratidão, para quem direcionar esses sentimentos? Uns dirão, a Deus, que nos fez assim, capazes de amar, outros dirão para nosso amor correspondido, por nos aceitar.
Digo que embora sejamos imperfeitos ainda e nos magoamos e erramos, e sentimos dor, e nos pesa o coração ao sofrer e ver que outros também sofrem; tudo nos é, em tempo certo, esclarecido. Se no amor o sofrimento se infiltra, filtra o sofrer e deixe fluir a compreensão. Não somos feitos para morrer, passar pela vida e deixa-la como a encontramos, somos humanos e nada nos impede de ir em frente, deixar marcas, cicatrizes. Quem um dia imaginamos ser, talvez não sejamos mais, incompletos, procuramos a essência de cada ser, e eu imagino que a vida nos quer amando, mais, menos, com dor, sem dor, intensamente, suavemente, no mais profundo recôndito da alma, ou na leveza da lágrima, amamos, pois que somos humanos.
O ser e seus mistérios
Quem dá risada para o mundo não o compreende quem chora pelo mundo não o enxerga. Observando a vida ao nosso redor, sem julga-la, despertamos a poesia de cada novo dia. É abrindo a janela no alvorecer que podemos experimentar os primeiros raios de sol a nos tocar o rosto. É no aroma do vento num dia de chuva que aprendemos que não há melhor lugar no mundo a não ser simplesmente estar naquele momento.
Quem nunca chorou ao se despedir ou sorriu no reencontro, quem nunca parou para ouvir a melodia do abraço, quem nunca esqueceu um aniversário só para depois se desculpar com aquele presente ou gesto inesquecível, quem nunca se perdeu nos próprios pensamentos, quem nunca duvidou da dúvida ou sonhou com a resposta para um grande e complicado problema. Quem nunca imaginou ter certeza e foi provado estar enganado. Quem nunca derramou lágrimas quando deveria rir e riu quando só havia motivos para chorar?
Quando paramos por um segundo e esquecemos a velocidade do tempo que nunca parece se adaptar ao nosso ritmo, quando paramos por um segundo e nos desligamos das exigências de todos os dias em que vivemos para trabalhar e não trabalhamos para viver, podemos ouvir mais, enxergar mais, pensar mais, respirar mais, sentir mais. Ouvir o som do silêncio, enxergar as cores da escuridão, pensar no que estamos deixando para o mundo, respirar aliviando a tensão e sentir os sorrisos que enfeitaram nosso dia, mas ficaram escondidos atrás da preocupação.
Ninguém consegue racionalizar todos os mistérios do mundo, tampouco apenas sentir com o coração todas as emoções e sentimentos acelerados nos meandros da mente. Cada milésimo de sentimento carrega seu minuto de razão. E cada segundo de razão carrega sua hora de emoção. Ninguém é feliz o tempo todo, mas é preciso ser muito pessimista para não retribuir um sorriso ou se alegrar com um abraço mesmo que seja apenas mais um ombro para chorar. Ninguém nasce pedindo para sofrer demais, nem vive para se esconder nas risadas. Todo mundo chora, todo mundo ri, às vezes chora de tanto rir, outras ri por tanto chorar.
15 de dez. de 2011
Terapia
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
O que foi aprendido em terapia nesses últimos anos nunca será esquecido. Sobre mim, foram-me desvendados grandes segredos, medos, anseios, paixões. Nada do que fora esclarecido está sujeito ao total e completo esquecimento. Sempre terei uma ideia de quem sou; às vezes vaga, incompleta, porém a cada encontro mais consciente. Na mente os pensamentos gritam inimigos do descanso não calam e esperam a hora de serem compreendidos.
As horas, os minutos, os segundos não se perturbam com minha ansiedade e desfilam lentos nas passarelas do tempo. Quando não consigo encontrar palavras, meu olhar pode apontar as estradas, as portas, os sentimentos que talvez eu não devesse tentar ignorar. Minha sensibilidade também sabe se fazer notar, pois com ela eu, algumas vezes, pude perceber a tristeza que não era minha e a distância que se abria.
Não sei como é a terapia para outros, para mim, é deixar entrar um pouco de luz onde só há escuridão. É perceber em mim o que somente enxergava nos outros, é como dizia a minha professora de história sobre história, desvendar o passado para compreender o presente e modificar o futuro. Foulcault um dia disse; “A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.”.
Foi enlouquecendo que descobri que não aguentava carregar meu mundo sozinha e foi na terapia que aprendi que não precisava fazê-lo. Inventei vários mundos para vários sentimentos, meu processo sempre fora explorar a imaginação e separar emoções para não me perder, mas sempre acabava me perdendo. Porém, foi em terapia que aprendi que o melhor caminho não é separar e na verdade compreender. Não preciso de uma psicóloga Perfeita, imune a erros, incansável, preciso apenas de uma alma humana que saiba tocar o que é frágil sem quebrar. Ouvir sem calar e sentir sem se perturbar.
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